“vontade de escrever” ou “não é de coração”

abril 27, 2010

você veio me ver numa noite em que cada passo era um passo em falso, naquela noite preta por vocação de ser preta. sem outros tons em seu espectro, ela me segurava com a firmeza dum barbante, fazendo com que todo movimento soasse como pequena ameaça. e o coração em sobressalto só fazia esperar pelo próximo precipício. temeroso da obviedade de minhas intenções, eu cobria de frieza todo ímpeto de te abraçar. destituído de todos os meus velhos argumentos, me pus em silêncio ao perceber que o que me restou foi apenas ser refém do que meus olhos queriam dizer.

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outubro sempre acaba

novembro 11, 2009

eu sabia de alguma forma oculta que meus passos, ainda que tentem criar rotas, apenas constroem labirintos. chega sempre a hora em que me volto para sua órbita e vejo que minhas certezas são tão porosas quanto falsas. contudo, reviver nosso passado me dá sede de futuro e é bom não caber mais nos seus tempos passados porque todo outubro tem gosto de uma pequena morte: não a morte que silencia a vida, mas a morte que torna sem sentido o que sobrou dela. o fino fio que ligava meu rosto ao seu peito teima ainda existir e não me dá outra chance senão me abrir para deixar você escorrer. e isso é definitivo até que outubro volte.


eu, a sala, a janela e o quarto

julho 5, 2009

esvazio meus bolsos, mas não me espalho todo pela casa. tudo o que trouxe comigo fica limitado a um pedaço da mesa. no maximo, vão até o criado mudo. conheço cada lugar aqui. ainda sei onde encontro o pó de café, o açucareiro, o uísque e o cinzeiro. na janela enorme, que me deixa ver boa parte da cidade, me pergunto como acabei vindo parar aqui de novo. o velho sofá branco, péssimo para deitar, mas perfeito para sentar e ver a magnitude da sala. tudo intocado como se ninguém vivesse ali. não há marcas de pessoas. sem violetas, sem forrinhos por cima das mesinhas. uma limpeza estéril, um luxo sem calor. enquanto ele dorme no quarto, eu penso no nosso jogo de afastar e aproximar, no passado que tive que ignorar para colocar minha barriga no parapeito da janela. penso que qualquer pedaço de felicidade é melhor do que não ter pedaço nenhum, que um sábado bem vivido compensa uma semana de inquietações. e como eu gostaria de ter a frieza para suportar tantos sentimentos e não me despedaçar de novo. me assusta o vento gélido e cortante que atravessa janela. tenho medo que ele desperte o que há de vivo em mim, que balance minhas certezas já tão falsamente erguidas. o que há de vivo em mim é o que há de morto em você. me alimento do que você não pode me dar. esvazio meus bolsos e meu peito enquanto vou até o quarto me deitar ao lado do corpo e sonhar com o homem.


uma mentira para cada pergunta

maio 28, 2009

há quem ainda tente juntar nossas pontas, há quem sinta vapores seus na minha respiração. me perguntam onde andam os seus passos. eu aponto no mapa e digo: aqui. está dormindo enquanto eu estou acordado, separado dos meus fusos horários, passeando além do meu braço estendido. me perguntam se você continua o mesmo, se já se curou das velhas moléstias. eu digo que eu e você somos iguais e suportamos o mesmo jugo. me perguntam o que aconteceu com a gente. eu gelo e busco uma mentira bem contada que encubra nosso malogro. qualquer coisa que dê a entender que nós agimos certo, que amamos e fizemos loucuras em momentos distintos.


como correr da própria sombra

maio 20, 2009
hoje quero não mais do que algumas partes daquilo que sempre quis maldizer o que nunca alcancei
como macaco que desdenha da banana mais alta
foi um modo humano de me resignar
tudo estratagema
ardil
por baixo do jogo de palavras, dos embaralhos,
está o mesmo crânio que precisa se recostar no peito
a mesma boca seca
o mesmo coração de convicções fracas
um azar de mil espelhos quebrados me obriga sempre a forjar a mesma face indolente
para evitar que todos se compadeçam
temeroso que sou da obviedade da minha fraqueza
amei com tanta força meu amor de brasa que sentirei falta até das dores inerentes a ele.

top 5 – oh eu não sabia

maio 19, 2009
que a biba rufus wainwright queria pagar de judy garland

que a biba rufus wainwright queria pagar de judy garland

que a miranda de sex and the city é lésbica

que a miranda de sex and the city é lésbica

que i will always love you foi composta pela barbie da roça

que o xuxu do clipe unbreak my heart, da toni braxton, ainda existia e tem um reality show de modelos nos estados unidos

que o roxette vai voltar


eu, você e todos nós

maio 17, 2009

amo assistir filmes nas manhãs de domingo. acordo, deixo meu quarto todo bagunçado, vou pra sala com minha pior roupa e uma xícara bem grande de café. é um ritual. o de hoje foi eu, você e todos nós.

eu queria um quadro com essa cena - imaginar as ausências, as lacunas e dar uma forma concreta a elas. é bonito não se esconder dos sentimentos ruins.

eu queria um quadro com essa cena - imaginar as ausências, as lacunas e dar uma forma concreta a elas. é bonito não se esconder dos sentimentos ruins.

andando até onde o carro está estacionado e construindo uma vida inteira nesse percurso de três minutos. imaginando o encontro, os laços formados, as brigas. e, depois, a decepção, porque nem todo mundo quer deixar de lado os idílios da poesia e viver a vida real.

andando até onde o carro está estacionado e construindo uma vida inteira nesse percurso de três minutos. imaginando o encontro, os laços formados, as brigas. e, depois, a decepção, porque nem todo mundo quer deixar de lado os idílios da poesia e viver a vida real.

depositando esperança de felicidade no casamento e num baú com o enxoval.

depositando esperança de felicidade no casamento e num baú com o enxoval.

nem todo mundo quer trocar a comodidade de se masturbar pensando em duas ninfetinhas por um contato real com elas.

nem todo mundo quer trocar a comodidade de se masturbar pensando em duas ninfetinhas por um contato real com elas.

miranda july, linda, linda, com suas blusinhas sempre listradinhas e estampadas.

miranda july, linda, linda, com suas blusinhas sempre listradinhas e estampadas.

uma bizarrice que só quem viu o filme vai entender.

uma bizarrice que só quem viu o filme vai entender.