Eu queria que fosse rosa

julho 30, 2008

Ela andava de bicicletinha-rosinha-com-cestinha pelas ruas do bairro

Não me lembro se era realmente rosa, mas gosto de pensar que era rosa mesmo!

Ela morava em prédio, num bairro que, na época, só tinha casas

Tinha olhinhos puxados também porque era a japonesinha-do-bairro.

 

Por uma chatice do destino, não brincamos juntos, não andamos de patins holler e nem pulamos pogobol.

Vivíamos em ruas perpendiculares, mas uma distância tanto besta quanto sem sentido não nos deixou crescer juntos.

Era uma distância como a do Brasil até o Japão. Não me pergunte o motivo porque eu não sei… nem ela sabe!

 

Ela foi para o Japão… passou momentos bons e ruins, cresceu, virou mulher linda!

Sua vida se entrelaçou com a vida de um primo-da-vizinha-da-tia-da-sogra-de-uma-amiga-minha.

Essa confusão, anos e anos depois, quando já éramos adultos e bem vestidos, nos aproximou.

 

Encontrei a japonesinha numa noite de uma sexta-feira em que eu sentia sentimentos que hoje quero deixar no passado.

 

Nos abraçamos como dois velhos amigos que nunca fomos… O carinho estava ali… intacto, lindo!


Glacê, farinha, ovos e testosterona

julho 27, 2008

 

Bem na esquina da minha casa fica a Padaria Conquista. Eu freqüento essa padaria desde uma data que nem lembro. Acho que quando nasci ela já estava lá. Quando pequeno, eu ia comprar lá, a pedido da minha mãe, tanto o pãozinho de todo dia, quanto a azeitona para a maionese especial de domingo.

 

Essa padaria tinha o nome carinhoso de Padaria do Seu Zé. Seu Zé era um grisalho alto e com voz enrolada e grossa. Ele tinha a maior cara de tarado também. Inclusive, uma amiga muita querida de infância, a Renata, jura que viu o velho se masturbando bem na esquina num domingo de manhã. Segundo ela, ele protegia seu ato apenas com um exemplar novinho em folha do jornal Estado de Minas. (Parêtensis: Obrigado, jornal Estado de Minas, por esconder de nós, moradores da rua dos Americanos, essa triste visão).

 

Punhetas do Seu Zé à parte, eu quero mesmo é dizer que a Padaria Conquista era mesmo uma conquista. Era um lugar simples, mas havia amor e cheiro de família por detrás de cada cantinho empoeirado, em cima de todas as latas encalhadas de morangos em calda (Quem diabos ainda compra morango em calda?).

 

Enfim, a Padaria Conquista era um lugar importante pra nós. Eu até imaginava que era bom ter amor pela padaria. Eu ficava imaginando o triste dia em que não teríamos nada pra comer e o Seu Zé, entre uma punheta e outra, iria nos fazer alvo de sua caridade. Influenciado pela educação “de crente” que tive, ficava imaginando como seria o mundo dominado pela besta. Todo mundo marcado com o 666 na testa e na mão. Quem não tivesse a marca não poderia comprar nada em lugar nenhum, nem da Padaria do Seu Zé.

 

Hoje, pasmem, a Padaria continua se chamando Conquista, mas não pertence mais ao Seu Zé. Uma família do interior (bem do interior meeeesmo) comprou a empresa. Tudo mudou, gente, tudo mudou. Agora não temos mais as simpáticas balconistas e caixas. Tenho saudade até hoje da Carla: uma caixa muito gorda e mal-humorada. Carla tinha uma beleza escondida por baixo daquela camisa de uniforme cinza e completamente estufada por causa do tamanho de seus peitos.

 

Acho que Carla era mal-humorada por não gostar de duas coisas: ser gorda e trabalhar na Padaria do Seu Zé… Carla sonhava alto. Um dia vi até ela comentando que queria morar na Áustria, terra do Van Dame, segundo ela. Felizmente, hoje ela resolveu esses dois problemas: grampeou o estômago e agora é caixa do Catalão, supermercado dirigido pelo bom-partido-e-quase-bonito Fernando. Junto com a gordura, ela perdeu também sua magia, sua altivez.

 

Carla era, então, um dos pilares que dava familiaridade e aconchego à Padaria do Seu Zé. Hoje a coisa funciona assim: ninguém sabe seu nome, ninguém avisa que seu pãozinho de batata preferido acabou de sair do forno. E o pior: ninguém se preocupa em entregar rapidamente seu pãozinho quentinho para você chegar em casa a tempo de continuar a ver Sessão da Tarde. Agora é um rodízio danado… todo dia tem uma caixa e uma balconista nova. Às vezes aparecem uns meninos da roça também. 

 

Não dá mais tempo de você ter raiva de uma gordinha chata porque no outro dia ela não estará mais lá. É tudo muito rápido, impessoal. Nos vendem agora só o pãozinho… não colocam mais amor dentro do saquinho de papel marrom e vagabundo.

 

O que mais me entristece é que as caixas e balconistas de agora não sabem nada sobre nós.

 

Agora a conversa é assim:

 

Marcos: “Um maço de Free, por favor”

 

Atendente-moreninha-com-cabelo-de-menina-de-7-anos: “Vermelho ou azul?”

 

Puta merda! Claro que é vermelho. Se eu quisesse azul, teria pedido um maço de Free Azul. Amigos fumantes, eu tô certo ou errado de ficar puto?

 

O que eu queria dizer mesmo nesse post é que não agüento mais aqueles bolos de aniversario da padaria. Gente, eles fazem uns bolos horríveis!!!!! É uma montanha de glacê e mau gosto. Não agüentava mais ver isso na vitrine, até que um dia criei coragem e perguntei para uma das funcionarias anônimas:

 

“Esse bolo foi feito por um homem, né?”