Olímpia

agosto 30, 2008

Então eu salto inutilmente em sincronia porque não há motivo que me prenda à plataforma. Salto porque a recompensa, meu prêmio, é encostar a mão no seu rosto. Prêmio este que não é promessa, não é garantia. É apenas medalha que pode ser tirada de mim a qualquer momento. Antes de saltar, meu corpo todo treme. Treme porque tenho medo que minha coluna não fique perfeitamente alinhada e isso desagrade a todos. Então mergulho. Mergulho bonito que quase não espirra água. Engano o empuxo, engano a razão, engano meus amigos. Só não engano a mim mesmo.

 

Dói. A água dá um tapa cruel. Mas ganho medalha: encosto a mão no seu rosto. E, espertamente, sem ninguém ver, acabo roubando um beijo. De quebra, ainda ganho um beijo. 


Domingo, né?

agosto 24, 2008

Mania de pedir o que não se pede e falar o que deve ser apenas pensando. De tanto pedir que você perceba poesia nos meus movimentos, agora meus passos e minha voz soam tão banais, tão triviais. Mas a poesia ainda vive. Não aquela poesia de linhas bem escritas, mas aquela que aparece por aparecer. Aquela que faz meu mundo parecer mais instigante. Cinza e instigante.


Invisível a olho nu

agosto 17, 2008

Deixe que eu te veja. Nem que seja apenas por segundos que me salvem de sangrar de saudade.

Dê-me apenas os beijos necessários para que meus lábios não se ressequem demais e durma comigo ao menos nas noites em que a dor esteja prestes a dar bote feito cobra.

Se faça presente. Não pela eternidade de uma semana, mas pelos minutos de um café, pelos segundos em que nossos olhos se encaram sem piscar, pelas frações de segundo em que a pele se arrepia.

 

Fica. Só até esse cigarro acabar.


Conotando até o chão

agosto 17, 2008

Palavra é boa mesmo quando está plural. Quando sapateia, serpenteia, rebola e sacoleja antes de ser expressa. Quando faz que vai dizer uma coisa e diz outra. Quando é faca de muitos gumes…

 

É melhor usada quando traz fonemas que são poéticos, quando carrega sílabas que são ciladas. É linda quando tem ranço de intimidade, quando arrebata por ser de verdade.

 

Boa é quando se torna contraditória, quando se presta a várias histórias. Palavra é boa quando a dizemos para nós mesmos, ainda que dizendo pra outra pessoa.


Queijo, estrógeno e progesterona

agosto 15, 2008

 

Ela poderia ser uma tia minha…alguém bem próximo tipo aquela amiga da minha mãe que faz salgadinho pra fora kkkkkkkk. O fato é que ela era lindinha, negrinha e de cabelos bem esbranquiçados. Estava com fome a minha tia. Tanto que parou numa lanchonete daquelas bem carinhas e pediu uma empada. Mas antes de tomar essa decisão, perguntou:

 

– Tem biscoito frito?

 

Todo idoso gosta de biscoito frito. Pergunta sua tia velha procê ver…

A empada lá era tão cara que a minha tia mostrou um punhado de moedinha pra moça do balcão e perguntou:

 

-Dá?

 

Nessa hora meu coração tremeu. Eu queria dizer pra minha tia que ali bem do lado tinha o biscoitinho-assado-de-queijo mais gostoso da América Latina. Eu queria proporcionar esse prazer à minha tia, mas perdi a voz na hora!

 

Se eu tivesse tido coragem, também iria orientar a minha tia sobre como conseguir um orgasmo.


Por dentro

agosto 14, 2008

“E era isso que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.”


Mais palavras sobre testosterona

agosto 10, 2008

Um dia desses estava comendo no segundo andar do Mc Donalds da rua Rio de Janeiro com Goitacazes. Enquanto comia, olhei pela janela e vi a Sra. G passar pela rua. Estava de branco como sempre porque seu trabalho assim o exigia. Passava com pressa com seus óculos escuros e seus cerca de 50 anos de idade. Ainda era bonita a Sra. G… tinha um certo charme de mulher bem sucedida, séria e casada. Sra. G estava bem longe de sua casa e por isso tinha o privilegio de andar pela rua como se fosse uma pessoal normal, como se não carregasse o peso da vergonha de ser casada com o Sr. T.

 

O Sr. T era uma das figuras mais lendárias e esquisitas da minha vizinhança. Ele era o tarado do bairro… era todo hormônios o Sr. T. Para alimentar ainda mais a nossa imaginação, ele usava um grande bigode meio crespo e era um homem extremamente calado, carrancudo. Que voracidade sexual tinha aquele homem! Olhava com fome sexual para toda e qualquer mulher que passasse por seu caminho. Não havia nenhuma mulher no bairro que nunca reclamou de ter sido alvo do olhar sedento do Sr. T.

 

Reclamavam, mas no fundo nutriam uma enorme curiosidade de ver o Sr. T desnudo. Ele tinha o corpo razoavelmente em forma, não tinha vícios… seria um morador comum, não fosse o cheiro de testosterona que tinha seu hálito. Seu andar era pesado… parecia agredir o chão… tudo por causa de tanta e tanta e energia sexual armazenada. Tinha dois filhos o Sr. T… uma moça e um rapaz. Os dois também sentiam vergonha do pai… tanto que não se juntavam a nós nas brincadeiras na rua. Viviam reclusos em sua grande e linda casa de classe média.

 

Formavam uma família marcada pelo sexo. Ou melhor, marcada pelo não-sexo. Isso porque o sexo deveria ser um tabu naquela casa. Eles não deveriam comentar sobre o assunto nas festas, nos jantares, nas férias. Ninguém ousaria dizer palavra sobre sexo porque isso poderia ofender os sentimentos do Sr. T. O sexo para ele era algo para ser vivido nas calçadas do bairro e não no seio de seu lar. Era nas calçadas que ele abastecia de imagens sua imaginação fervente. Era ali que ele escolhia suas vítimas. Nunca ousou cometer nenhum ato de violência ou abuso porque as convenções sociais não o permitiriam, mas ele bem que tinha vontade.

 

Bem que tinha vontade de soltar seus instintos com a inconseqüência de uma fera.