Submissão paciente aos sofrimentos da vida

setembro 26, 2008

Das três definições que o Aurélio tem para a palavra resignação, esta era a que ela gostava mais. Adorava tanto que ficava repetindo toda hora, tomando o maior cuidado com o som de cada sílaba: Submissão paciente aos sofrimentos da vida. Adorava o fato de existir uma expressão tão perfeita e condizente com sua realidade. Na verdade mesmo, ela não era de todo uma figura abnegada, conformada etc. Até possuía dentro de si aquela força de mudar o que está errado, de converter em azul o que está cinza. Mas gostava de ver a si mesma como uma mulher resignada. Acho que pensava assim porque sua analista a deu este atributo. De bom grado, ela vestiu a carapuça pra sempre porque viu no termo uma sutil reminiscência religiosa que era linda. Vai ler mais Adélia Prado pra ver o que te acontece, filhadaputa. Ninguém em sã consciência poderia amar tanto uma palavra como essa porque imagina só… pior do que ser estuprada é admitir que foi estuprada e que foi de 4 e que foi pelo cu. Então se lembrou de suas pobres aulas de literatura no segundo grau e parece que ouviu a voz da professora gorda e/ou lésbica dizendo que uma das características mais marcantes do estilo romântico é a presença de uma propensão ao sofrimento. Era aí que ela se encaixava… era aí que o crachá de resignada lhe caia bem. Ela sofria, tinha prazer em chorar tambores de lágrimas por sujeitos que a davam tesão e algumas horas de palavras bem faladas, bem elaboradinhas. Eles a fodiam com força e ela se sentia uma princesa delicada em motéis empoeirados. Depois do sexo, ela fazia carinha de fêmea satisfeita enquanto eles procuravam suas cuecas por baixo daqueles lençóis pseudo brancos. No dia seguinte, geralmente um sábado, ela nutria planos de tomar um café num lugar chiquezinho da Savassi com seu eleito. Eles não ligavam, claro. Ela conferia o celular um sem número de vezes e nada. Só uma amigas chatas, igualmente desiludidas, ligavam para chamá-la para uma cerveja gelada. Ela não ia porque queria desfiar seu rosário e sofrer seus sofreres em casa. Sabia como era o ritual do luto e achava lindo sua vida ser tão insossa e os príncipes encantados serem tão vulgares. Até passava um pouquinho de maquiagem para logo depois desmanchar a cobertura de pó com meia dúzia de lágrimas. Depois se olhava no espelho para ver como tinha ficado aquele barrinho no rosto. Na semana seguinte, pacientemente, pintava o cinza de azul, passava um perfuminho no pescoço e na barriga e ia de novo encontrar príncipes vulgares.


setembro 22, 2008


Pedaço de parágrafo

setembro 20, 2008

Vou dizer que um acreditou numa frase boba que diz que a medida do amor é amar sem medida. Acreditou tanto que amou demais, mesmo vendo que o amor ia e não voltava. Se perdeu de todo mundo e só queria sentir aqueles braços em todos os abraços.


Medo de mentiras e asfalto preto

setembro 16, 2008

Ela disse que travou por causa do tanto de mentiras com que vinha convivendo nos últimos tempos.

Ele estava pisando em nuvens pela primeira vez depois de uns dois anos. Sabia que tudo estava realmente acontecendo, mas não sabia até quando iria durar… não sabia se era de verdade.

Ela decidiu falar só a verdade. Decidiu varrer a mentira de seu mundo cheio de cores, curvas, músicas, papel e cola.

Ele sempre acreditava em tudo, mesmo sabendo que tudo era mentira;

Ela conseguiu criar uma espécie de armadura para se defender de mentiras.

O estranho (e lindo) é que essa armadura é bem colorida, tem uma gola estilo alta costura e um All Star.

Ele, enquanto isso, queria nuvens e mais nuvens. Não queria mais pisar em asfalto preto, queria nuvens.

Ela é doce demais. Tão doce que se chama cereja. Apelido, aliás, que caiu como uma luva linda. Alta costura de novo, claro.

Ele tinha medo que pequenas mentiras tornassem seu mundo de nuvens menos branco… mais duro.

Ela merece cada dia lindo que tem. Distribui sorrisos e recebe gentilezas da vida porque acredita que é assim que tem que ser.

Ele continua pisando em nuvens, pensando no amor que sente e sentindo nojo de asfalto preto.

Os dois são tão lindos que seus problemas tornam suas vidas igualmente lindas.


Compartilhando José de Alencar

setembro 16, 2008

“A torrente de luz, precipitando-se pela abertura das janelas, encheu o aposento; e a moça adiantou-se até a sacada para banhar-se nessas cascatas de sol que borbotavam sobre a régia fronte, coroada do diadema de cabelos castanhos, e desdobravam-se pelas formosas espáduas como uma túnica de ouro. Embebia-se de luz. Quem a visse nesse momento assim resplandecente poderia acreditar que sob as pregas do roupão de cambraia estava a ondular voluptuosamente a ninfa das chamas, a lasciva salamandra, em que se transformara de chofre a fada encantada.”


Falta KY no meu Word

setembro 7, 2008

O word em branco é de uma luminosidade capaz de destruir qualquer segmento anterior da retina. Diz que há muitos sentimentos para colocar no papel e pouco impulso para transformar abstrações em letras. Os fonemas e as sílabas saem com a sofreguidão de um parto. É estranho porque estamos na época de colheita de frases. Sentimentos e experiências novos deveriam lubrificar dedos e teclado, mas isso não está acontecendo.

 

Talvez não esteja acontecendo porque ainda não me acostumei à nova fase. Ainda não criei lodo por cima dos novos sentimentos. Então eu penso em minha nova felicidade e tento tirar dela alguma coisinha… uns 1.500 caracteres já me deixariam satisfeito. Não sai nada. Falta a merda do lodo.

 

Então eu tento tirar caracteres da tristeza que tenho sentido por causa de dois amigos que estão passando por uma fase barra pesada. Não sai nada. De novo! Talvez seja porque esses caracteres reflitam a minha impotência por não poder arrancar com a unha a dor que eles estão sentindo.

 

Tento também escrever algo sobre esperma. Tudo baseado numa revista Istoé de 1994 que estranhamente está no meu banheiro. O texto fala de uma professora de Biologia que, numa aula sobre reprodução humana, pediu aos alunos para irem ao banheiro bater uma e depois trazer um tiquinho de porra para ser analisada no microscópio. Letra nenhuma sai disso. Mas sei o motivo…

 

Não sai nada nem quando escuto música. O Richard Ashcroft e o Rivers Cuomo têm me excitado, mas post para eles que é bom não rola. Nem os cabelinhos brancos de Adélia Prado, nem os poeminhas do Drumond, nem a Grila, nem ninguém tem me lubrificado a escrever. 

 

Aceito sugestões, aceito inspirações e aceito doações de KY.


Pedacinho de um segundo parágrafo

setembro 2, 2008

Um via poesia em tudo. Queria metáforas, bilhetinhos e toda sorte de hipérboles logo no café da manhã. O outro tomava muito cuidado com as palavras porque tinha medo das armadilhas de cada fonema. se calava. Mas dava sorrisos luminosos, fazia planos que nunca iriam se cumprir e, um dia ou outro, até ensaiava um eu te amo meio engasgado.