dezembro 21, 2008

Pensei que não demoraria muito para as letras do seu nome se apagarem da janela umedecida daquele hotel frio. Do lado de fora, quem passou pela rua viu seu nome de trás pra frente e não entendeu o que se passava. Dentro do quarto, também não se entendia muita coisa porque eu fiquei procurando explicações para o que estava explícito. Um tempo depois, tranquei meus dedos para não deixar escorrer o que na verdade já estava no chão e cerrei os dentes tal qual uma parturiente. Voltei a níveis anteriores de aflição e era salvo por telefonemas repentinos no meio da tarde. Saía para construir sentidos para o que restou do mundo. Algo como bater num chuveiro velho para fazê-lo funcionar, provocar curtos-circuitos.


Queria não postar, mas não consigo

dezembro 12, 2008

Eu sou o Marcos dos Anjos. Na verdade, meu nome completo tem mais penduricalhos, mas vamos deixar assim. Fiz 26 anos há pouco tempo, sou jornalista. Meu trabalho é colocar o nome das pessoas no jornal para que elas pensem ser algo que não são. Mas vamos deixar assim porque eu também penso ser algo que não sou. Penso que escrevo bem, mas apenas sei construir períodos pouco caóticos, colocar vírgulas em lugares certos e não errar muito na concordância do verbo parecer. Penso que sou romântico, mas mudo de idéia quando percebo que o que eu faço é criar exigências demais para deixar o amor a uma distância segura. Admito com vergonha que não sei dirigir e que já usei calça jeans manchada de água sanitária quando tinha 19 anos. Conto sempre as mesmas histórias e ouço sempre as mesmas músicas porque tenho medo de que algo atrapalhe o mundinho que eu considero bonito. Me acho bonito quando acabo de tomar banho e me olho no espelho do banheiro ultra claro da minha mãe. Sinto saudade de olhar por antigas janelas e sentir antigos braços. Me culpo também por não ser tão racional quanto as pessoas querem. Queria ter sido biólogo ou químico. Seria uma desculpa perfeita para poder usar microscópios o dia inteiro porque eu só consigo enxergar o que é quase invisível. Penso que daqui a uns três anos eu seja a pessoa que estou ensaiando para ser. Caso eu não consiga, fica aqui registrado que eu estou tentando. Adoro escrever no meu blog pelo simples motivo de ele ser a mídia perfeita para esconder verdades. Isso porque as pessoas não prestam atenção no que você escreve. Você não vai perceber nunca que aqui nesta frase no meio do texto eu estou mandando você tomar no cu, vai? Sou insensível e não me comovo com tragédias pessoais exibidas na televisão e nem com mendigos na rua. Talvez por não ter carro, não tenho medo nenhum daqueles seres detestáveis que cobram para olhar carros na rua.  Queria ser interessante a ponto de ser convidado para um programa de entrevista, mas não a ponto de usar óculos de aro preto e fazer tatuagem. Fumo, bebo e como todas as pontas das canetas. Sei fazer sorvete como ninguém, pago uma academia que não freqüento, nunca atualizo meu mp3 e adoro fazer colagens porque penso que algum dia ainda vou fazer alguma coisa importante com elas. Quando sinto que minha vida está bagunçada eu organizo minha mochila e a cabeceira da minha cama. Não funciona. Me desculpe, mas tenho apenas quatro amigos. Desses quatro, apenas dois me ouvem pacientemente. Os outros dois me fazem rir e me ajudam na minha mania de fingir ser outra pessoa.  Tenho medo de chuva forte e sempre tenho pesadelos com baratas. Nado mal e sinto raiva quando vejo pessoas que pulam perfeitamente de ponta na piscina. Me arrependo das coisas que falo, mas não das que escrevo. Quase esqueci: sou de sagitário e sou magro.


Para o nosso próximo encontro

dezembro 6, 2008

Numa idêntica manhã nublada de sábado, nós iremos cortar nosso cabelo juntos de novo. Vai ser do mesmo jeito: falaremos coisas superficiais sobre como a sociedade é ingrata e excludente, sobre com as pessoas andam frias ultimamente e sobre as mazelas do poder judiciário, sua especialidade. Enquanto você defende suas teses nada fantásticas, vou continuar alternando meu olhar entre sua boca e seu sexo, tomando o maior cuidado do mundo para não deixar você ter consciência de que suas frases bem elaboradas me dão tesão. Vou continuar também naquele esforço tremendo de dizer coisas inteligentes para disfarçar minha fascinação. Só uma coisa vai ser diferente: você vai me convidar pra almoçar e depois a gente vai transar.


dezembro 5, 2008

Haja eufemismo para tanta desgraça                                                                            

Haja metáfora para tanta matemática


Pedaço de algo que não deveria estar aqui

dezembro 3, 2008

Embora tenha a capacidade de acalmar vendavais, o mais triste do tempo é que ele vai tornar banal o que foi importante. Além de agir sobre feridas, ele vai também pisotear momentos cobertos de beleza. É este o preço que se tem de pagar para poder usufruir dos serviços que o tempo presta. Quando deitamos no chão, porque manter-se de pé é a coisa mais difícil pra uma pessoa com tesão, eu logo pensei no tempo. Fiquei com medo porque tinha uma vaga lembrança de como seria difícil esquecer este momento no futuro. Corajoso, fechei portas pro medo e abri pernas pra burrice. Foi uma decisão natural de alguém como eu que adora prazeres, alguém que não hesita andar 15 minutos a pé só pra poder ter o prazer de pegar um ônibus vazio.  Agora chegou a hora em que o tempo terá que arranjar uma forma de apagar essa cena. Como começar? Apagar primeiro uma cueca jogada no chão não seria uma decisão tão inteligente porque bem que ela serve para fazer mandinga, feitiço ou coisa assim. Também não comece por uma carteira marrom em cima do sofá porque a gente quase sempre esquece que cifrões são instrumentos de dominação. O melhor seria começar apagando da memória uma janela com uma vista bonita porque isso me faria aprender a viver a minha realidade, e não a dos outros.