longe de deus

abril 26, 2009

seu sorriso estrategicamente desalinhado e suas maneiras de homem ordinário me fazem ter a segurança de que não estou diante de uma divindade. você me simplifica, me abre e me descobre. me faz ter menos argumentos, me vulgariza como um dito popular, me faz ser unidimensional. você não me encanta sempre e nem completamente, não tem todos os poderes sobre mim. fico duro e reflexivo, não me desfaço em pétalas ao seu lado. mas descubro suas diferentes faces e vejo que o homem que estava no café não é o mesmo que foi para o quarto. você me brinda com o olhar sério e confiante que não dá para qualquer um. me assusto, me enterneço, descubro que homens são tão perigosos quanto os deuses. 


o poema das obrigações

abril 2, 2009

eu durmo murmurando

escrever, escrever, escrever

me contorço

retenho

espero o melhor momento

seco gota de fonema na testa molhada

quisera ter verônica para limpar minha fronte

viro pro lado e sílabas tônicas escorregam pelo cobertor

vão ao chão

adormeço depois dos espasmos

amanheço pasmo e endurecido

não estou cumprindo o falso oficio a que eu mesmo me arroguei

escorrem palavras de todos os orifícios

do nariz e do cu

do ouvido e da boceta

rogo divindades em meu socorro

diabo e santa rita de cássia

deus e os apóstolos

hércules

escrever, escrever, escrever


tenha ciência

abril 2, 2009

eu quero rabiscar o meu nome na sua testa

te soletrar o meu mundo

te fazer ir bem fundo

quero te mostrar de que é feita a minha matéria

entupir suas artérias

te provar que sou de sagitário

que não sou tão diferente

sou feito de ordinária semente

que teimou em germinar

vingou

hoje tem carências profundas de planta mal regada

feito caminho de mesa, quero abrir tudo pra você

me desdobrar alinhadinho

só para te mostrar que não estou representando

não agora

quero desembaçar sua visão

me esfregar todo em suas pálpebras abertas

dar-me a conhecer

te dar outros conceitos

me desmentir

só pra calar minha angustia e minha pena de sua cegueira