quase como uma briga

maio 10, 2009

havia um estômago pesado demais que me segurava ao chão e não me deixava flutuar rumo a sua omoplata. tinha vestígio de dois conhaques no meu hálito, tinha aquela sensualidade boba de quem bebeu.  tinha a cama, acostumada demais aos prazeres solitários. mas você estava aqui. era meu quarto, era madrugada e frio lá fora. você expressava certezas, fazia elogios discretos e explícitos, se recostava na almofada, me fitava. enquanto eu cerrava ouvidos para seus engenhos, a vizinha recebia uma serenata. meu coração e meus lábios percebiam música, coragem e carinho lá fora. não me fazia entender, não conseguia lançar mão dos argumentos dos quais você me destitui com sua presença.  aqui dentro também era música, mas sem coração em sobressaltos, sem o medo da pressa do ponteiro dos segundos. o que tinha era a pele, mais assaltada de indecisão do que de desejo. mas você estava aqui; acima, em torno, sob, paralelo e simétrico, na tarefa árdua de romper o transe, procurando atalhos para percorrer minhas distâncias.