quase como uma briga

maio 10, 2009

havia um estômago pesado demais que me segurava ao chão e não me deixava flutuar rumo a sua omoplata. tinha vestígio de dois conhaques no meu hálito, tinha aquela sensualidade boba de quem bebeu.  tinha a cama, acostumada demais aos prazeres solitários. mas você estava aqui. era meu quarto, era madrugada e frio lá fora. você expressava certezas, fazia elogios discretos e explícitos, se recostava na almofada, me fitava. enquanto eu cerrava ouvidos para seus engenhos, a vizinha recebia uma serenata. meu coração e meus lábios percebiam música, coragem e carinho lá fora. não me fazia entender, não conseguia lançar mão dos argumentos dos quais você me destitui com sua presença.  aqui dentro também era música, mas sem coração em sobressaltos, sem o medo da pressa do ponteiro dos segundos. o que tinha era a pele, mais assaltada de indecisão do que de desejo. mas você estava aqui; acima, em torno, sob, paralelo e simétrico, na tarefa árdua de romper o transe, procurando atalhos para percorrer minhas distâncias.

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longe de deus

abril 26, 2009

seu sorriso estrategicamente desalinhado e suas maneiras de homem ordinário me fazem ter a segurança de que não estou diante de uma divindade. você me simplifica, me abre e me descobre. me faz ter menos argumentos, me vulgariza como um dito popular, me faz ser unidimensional. você não me encanta sempre e nem completamente, não tem todos os poderes sobre mim. fico duro e reflexivo, não me desfaço em pétalas ao seu lado. mas descubro suas diferentes faces e vejo que o homem que estava no café não é o mesmo que foi para o quarto. você me brinda com o olhar sério e confiante que não dá para qualquer um. me assusto, me enterneço, descubro que homens são tão perigosos quanto os deuses.