dear,

maio 15, 2009
saí pra comprar uma cortina nova
essa que nós temos é muito clara,
não deixa escurecer o quarto direito
e isso faz aparecer poeira em todos os cantos.
vou comprar uma alaranjada bem forte.
peguei mais 30 reais de dentro da sua meia.
tenho que comprar uma apostila de concurso e adoçante.
hoje sonhei com minha mãe
isso me lembrou que prazer demais é pecado.
alias, peguei mais 30 reais.
quero um livro que desminta mamãe.
não ficou nada na meia, tá?
deixei dois cigarros no braço do sofá
se vira com eles até eu chegar
devo demorar um pouco
vou passar na academia
pedir nosso dinheiro de volta
vou voltar com
conhaque
cigarro
duas revistas
dois dvd pirata
e gelatina
te amo
vai ficar tudo bem
 
du

ouvindo toda hora

maio 14, 2009

não achei um vídeo melhor no you tube. então, vai esse mesmo. oh no! oh my tocando walk in the park. amei o cd todo, e essa nem é a minha preferida, mas tá sendo boa pra ouvir no trabalho, antes de dormir etc.


quase como uma briga

maio 10, 2009

havia um estômago pesado demais que me segurava ao chão e não me deixava flutuar rumo a sua omoplata. tinha vestígio de dois conhaques no meu hálito, tinha aquela sensualidade boba de quem bebeu.  tinha a cama, acostumada demais aos prazeres solitários. mas você estava aqui. era meu quarto, era madrugada e frio lá fora. você expressava certezas, fazia elogios discretos e explícitos, se recostava na almofada, me fitava. enquanto eu cerrava ouvidos para seus engenhos, a vizinha recebia uma serenata. meu coração e meus lábios percebiam música, coragem e carinho lá fora. não me fazia entender, não conseguia lançar mão dos argumentos dos quais você me destitui com sua presença.  aqui dentro também era música, mas sem coração em sobressaltos, sem o medo da pressa do ponteiro dos segundos. o que tinha era a pele, mais assaltada de indecisão do que de desejo. mas você estava aqui; acima, em torno, sob, paralelo e simétrico, na tarefa árdua de romper o transe, procurando atalhos para percorrer minhas distâncias.


frases para outubro

maio 7, 2009

outubro teve ares de eternidade com seus trinta e um mil dias. as pessoas andavam alvoroçadas porque ainda não sabiam em quem votar. um engravatado esbravejava que iria chutar a bunda do concorrente. que ironia. eu não me importava com o que seria da cidade. fodas pro trânsito engarrafado; minha garganta também estava. fodas pro aumento da passagem; não queria sair de casa mesmo. hoje, sua lembrança me volta e eu acordo com um mau humor infantil, sentindo a contrariedade de um mundo que não me foi condescendente, sentindo a culpa por não ter ido embora antes de o meu amor se misturar à sua loucura. hoje, invento frases bobas que me ajudam a esquecer uma outra que você disse: não consigo fazer ninguém feliz. hoje, eu digo a mim mesmo: não é pra tanto. não é pra tanto, penso tão fortemente que minha boca fechada quase arrisca um som.


longe de deus

abril 26, 2009

seu sorriso estrategicamente desalinhado e suas maneiras de homem ordinário me fazem ter a segurança de que não estou diante de uma divindade. você me simplifica, me abre e me descobre. me faz ter menos argumentos, me vulgariza como um dito popular, me faz ser unidimensional. você não me encanta sempre e nem completamente, não tem todos os poderes sobre mim. fico duro e reflexivo, não me desfaço em pétalas ao seu lado. mas descubro suas diferentes faces e vejo que o homem que estava no café não é o mesmo que foi para o quarto. você me brinda com o olhar sério e confiante que não dá para qualquer um. me assusto, me enterneço, descubro que homens são tão perigosos quanto os deuses. 


o poema das obrigações

abril 2, 2009

eu durmo murmurando

escrever, escrever, escrever

me contorço

retenho

espero o melhor momento

seco gota de fonema na testa molhada

quisera ter verônica para limpar minha fronte

viro pro lado e sílabas tônicas escorregam pelo cobertor

vão ao chão

adormeço depois dos espasmos

amanheço pasmo e endurecido

não estou cumprindo o falso oficio a que eu mesmo me arroguei

escorrem palavras de todos os orifícios

do nariz e do cu

do ouvido e da boceta

rogo divindades em meu socorro

diabo e santa rita de cássia

deus e os apóstolos

hércules

escrever, escrever, escrever


tenha ciência

abril 2, 2009

eu quero rabiscar o meu nome na sua testa

te soletrar o meu mundo

te fazer ir bem fundo

quero te mostrar de que é feita a minha matéria

entupir suas artérias

te provar que sou de sagitário

que não sou tão diferente

sou feito de ordinária semente

que teimou em germinar

vingou

hoje tem carências profundas de planta mal regada

feito caminho de mesa, quero abrir tudo pra você

me desdobrar alinhadinho

só para te mostrar que não estou representando

não agora

quero desembaçar sua visão

me esfregar todo em suas pálpebras abertas

dar-me a conhecer

te dar outros conceitos

me desmentir

só pra calar minha angustia e minha pena de sua cegueira